quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Sapateiro - A Arte de uma Vida


Era já fim de tarde e lá estava eu a descer a calçada em direcção ao fundo do povo, quando passei em frente à sapataria (não sei como lhe chamar) do Sr. Carlos Gomes. Depois de várias tentativas frustradas para encontra-lo lá, naquela tarde fresca que ameaçava abrir o céu só para uns chuviscos de Junho, apurei o olhar e ao longe reparei numa porta aberta que encimava umas escadas de pedra. Era hoje o dia. Voltei-me então para a esquerda e subi a ladeira de terra batida. À esquerda uma parede de pedra de uma casa velha. À direita latas mais velhas que eu e vencidas pela ferrugem, expulsavam para fora da terra dentro de si flores toscas e coloridamente desajeitadas. A seguir aos arcaicos vasos engenhosamente improvisados, um pequeno galinheiro de tábuas desordenadamente pregadas e um metro quadrado de rede farrusca, estava de porta aberta mostrando-me a palha remexida no chão e o poleiro. Penetrei por entre a arcada de granito e os meus pés pisaram a laje onde molhos de lenha empilhados não impediam meia dúzia de galinhas de deambular desordenadas bicando tudo o que o chão tinha para lhes oferecer. Dei mais uns passos para atravessar a grande laje de granito que formava o chão do pátio e já com o cão a ladrar atrás de mim, eis que fiquei ao fundo das escadas que eram encimadas pelo atelier (continuo sem saber como lhe chamar) do Sr. Carlos. Madeira escurecida pelo tempo formava a parede exterior deste anexo. A porta aberta deixava-me antever a claridade emanada do seu interior, resultado da luz natural do fim de tarde que entrava pela janela oposta à porta. Quando chamei por ele ouvia já o som do manuseamento da ferramenta. Subi as escadas e fui recebido pelo seu característico sorriso e boa disposição. Passei a porta num instante e entrei num mundo de “coisas”. Coisas penduradas nas paredes, coisas penduradas no tecto, coisas que abarrotavam prateleiras, coisas despojadas pelo soalho, enfim, coisas e mais coisas. O leve cheiro a graxa chegava a ser agradável de tão suave. Sentei-me num espectacular banco de madeira em frente ao Sr. Carlos e a viagem começou. Toda aquela confusão (para mim) de “coisas” despojadas pela oficina de calçado (continuo sem saber que nome lhe dar), o seu material de trabalho e o suave odor a graxa eram a combinação perfeita para despertar em mim sensações que ao sabor das palavras experientes do homem me fizeram viajar por tempos em que as pessoas mandavam fazer os sapatos por encomenda. Um par de sapatos por ano. Feitos à mão através de uma arte que foi próspera em trabalho e é agora próspera em findar. Das suas palavras surgia a pena de não ter conseguido passar a sua arte aos seus descendentes. A pena de ver no seu trabalho o fim de uma era. Da sua simpatia surgiam explicações para isso. Da sua paciência surgiam ensinamentos do seu ofício.

Posso continuar ainda sem saber que nome dar ao local onde o Sr. Carlos Gomes trabalha. Mas uma coisa sei de certeza. Aquele seu espaço de uma vida é um local onde a tradição, o trabalho e a verdade fazem parte da história de um povo e se cruzam com a história de um país.

(siga este link e veja também o vídeo-documentário realizado por mim em 2010 com o Sr. Carlos Gomes em actividade e dando várias explicações: http://www.youtube.com/watch?v=FFbwxeqWw2w )

A escadaria de pedra (e madeira) que dá acesso ao seu local de trabalho


 Sr. Carlos Gomes em actividade no seu atelier


 As prateleira com materiais do seu trabalho


 Antigamente fazia sapatos de raíz, hoje em dia faz arranjos em calçado


 Sr. Carlos Gomes


 Com a velhinha máquina Singer cozia os cabedais do calçado


 Formas de calçado de madeira, usadas para a sua construção de raíz


 A janela fornece luz natural durante todo o dia


 O "pé de ferro" é um utencilio essêncial ao seu ofício


 Tio Carlos Sapateiro


 Em actividade


 Todo o espaço está recheado, desde as paredes ao chão


 Uma arte primorosamente manual


 Um ofício de rigor e sabedoria passada pelo trabalho


A boa disposição e simpatia são naturais do Sr. Carlos Gomes


 
     Agradecimento:
Agradeço ao Sr. Carlos Gomes, carinhosamente e profissionalmente conhecido por Tio Carlos Sapateiro, toda a sua disponibilidade, simpatia e prazer de receber no seu espaço de trabalho. Também por todas as suas histórias de outros tempos partilhadas com sabedoria.

Fotografias e texto: Bruno Andrade

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