quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Furnas. Muito mais que cozido


Ao vislumbrar a vista ainda no avião, não restam dúvidas que vamos aterrar num paraíso à deriva no Atlântico, a Ilha de São Miguel, Açores. E dentro dos infindáveis lugares que esta ilha abriga, há um que por si só já é uma maravilha, as Furnas.
Ainda antes da descida até ao lugar, visitámos o Miradouro do Pico de Ferro, um miradouro que nos daria uma visão total da Lagoa das Furnas não fosse o denso nevoeiro matinal que apenas nos deixou descortinar a maravilhosa vista a espaços. Uma floresta saída de um conto de fadas rodeia todo o local e podemos ficar tempo sem fim a contemplar esta paisagem enquanto a nossa imaginação mergulha no romantismo da literatura clássica.
Depois da descida curva contra curva e de já termos o sol a fazer-nos companhia, a primeira caraterística que não deixa dúvidas onde chegamos às Fumarolas é o cheiro a enxofre que não sendo ao primeiro olfato muito agradável, acaba por nos conquistar e ficar no recanto da memória como companhia de um agradável passeio. Daqui contemplamos a natureza envolvente de outra perspetiva absolutamente arrebatadora e como não poderia deixar de ser, os vapores que brotam do chão e os buracos que a esta altura se encontram tapados com o famoso cozido das furnas a apurar. Cerca de cinco horas que ali ficam até serem recolhidos para fazer as delícias dos visitantes. O crescente número de mirones revela que está na hora da recolha pelos empregados dos restaurantes onde depois pode ser apreciado. Ficamos a admirar a beleza daquele espetáculo que nos abre imediatamente o apetite. Depois lá fomos nós, inevitavelmente, provar tão famoso cozido no restaurante Caldeiras e Vulcões que no nosso ponto de vista (e de paladar), faz jus à fama que tem.
Para ajudar à digestão fomos passear pela vila cheia de encantos. Com a natureza e a floresta verdejante a dominar, os vapores resultado de processos termogeológicos são um ponto de atração em Caldeiras das Furnas, um belo parque com trilhos por entre vapores e com uma água de nascente gaseificada ferrosa que ao segundo golo já é a nossa água preferida. Na vila tivemos ainda a oportunidade de molhar os pés sentados à beira rio e apreciar a forma como tudo está limpo e cuidado, fazendo-nos crer que o que realmente importa aqui são as pessoas e o seu bem-estar. E por falar em pessoas, que exemplo de simpatia, educação e de bem receber que são os micaelenses.
De regresso à lagoa exploramos as suas margens já com um nevoeiro místico a envolver a paisagem. Aqui o tempo para e tudo parece mais bonito. Pouco antes do cair da noite lá fomos nós até mais um ex-líbris da Furnas, a Poça da Dona Beija. Várias piscinas naturais de água bem quente, aquecida apenas pela natureza. Por aqui nos banhamos de piscina em piscina, qual spa abraçado pela natureza envolvente.
Ao despedirmo-nos da vila não poderíamos deixar de comprar o pão lêvedo, tão tradicional iguaria local. E mais tempo tivéssemos nesta acolhedora vila mais visitaríamos como o Parque Terra Nostra e o seu jardim botânico, as Termas e outros miradouros.
Um agradecimento muito especial à Beatriz, ao Filipe e ao Benjamim que foram uns anfitriões espetaculares e nos permitiram ter uma grande experiência nas nossas vidas. 
























Fotos por Bruno Andrade. Texto por Vera Pereira e Bruno Andrade

terça-feira, 24 de abril de 2018

O Último Moinho do Último Moleiro


O som da água aumenta a cada passada. Acompanhado pelo Sr. Armando, dirigimo-nos ao Rio Dão, em Porto de Aguiar, Dornelas para aproveitar as águas que as chuvas deste ano nos trouxeram. Por fora, uma casinha ancestral de pedra passa despercebida a quem por ali se perde. Vindo de há muitas gerações atrás, este moinho de água vê-se agora no seu prazo de validade curto, pois as novas gerações renegaram a sua utilidade, a sua tradição, a sua potencialidade, fruto do chamado êxodo rural. Chegados ao moinho a paisagem em redor pede por si só uma visita. O rio em declive com o seu açude e respetiva cascata inundam-nos os ouvidos com o relaxante som da água que corre cristalina. O verde da floresta e dos campos envolventes alegra-nos o olhar e o chilrear dos pássaros inserem-nos num conto de fadas. Todos os nossos sentidos revigoram e ainda nem chegamos ao que nos trouxe cá. Aliando a sua simpatia à enorme capacidade de explicar tudo o que tem a ver com a dinâmica do moinho, o Sr. Armando transforma este passeio numa autêntica visita guiada. Abrindo caminho por entre ervas que nos dão pelos joelhos, chegamos a um canal feito de pedra, paralelo ao rio, por onde também corre água. Na extremidade deste canal, um enorme poço também este de granito, com boca larga mas que vai estreitando até desaguar no inferno, nome do pequeno piso inferior do moinho com uma abertura em forma de cabana. Neste compartimento existe uma estrutura redonda chamada rodízio, que com a pressão da água roda e como está diretamente ligado à mó acima, fá-la rodar também. A abertura do canal para o poço ou novamente para o rio funciona assim como interruptor para a mó e respetiva moagem. Uma telha transparente, a porta de entrada e um pequeno janelo dão a claridade suficiente a este local que só precisa da natureza e da mão humana para funcionar. No interior do moinho, sente-se um agradável cheiro a farinha acabada de moer. Por entre sacas de farinha e uma mó desativada que também merece uma apresentação, chegamos ao pequeno compartimento onde se encontra outra mó em pleno funcionamento. Pequenos grãos de milho acumulados na dorneia, estrutura de madeira em forma de pirâmide invertida, mostram o seu tom dourado ao escorregarem aos poucos pela quelha e entrando no olho da mó. O chamadoiro, uma peça de madeira em forma de cruz presa à quelha e com a base na superfície da mó, recebe o atrito suficiente para fazer rolar o milho, o qual a sua quantidade se saída também é regulado na dorneia. A mó assenta numa base de pedra com forma para a encaixar, apenas com uma abertura à frente por onde é bem visível o tom amarelo da farinha a cair para um monte no tremonhado à sua frente e que o Sr. Armando ao fim do dia se encarrega de apanhar e ensacar. Depois de todo este processo, os clientes que antes cá deixaram o produto em forma de grão, veem agora busca-lo em forma de farinha para assim poderem fazer o seu pão caseiro no forno comunitário ou até para os caldos que alimentam a criação. Como em tudo em que a natureza reina, o funcionamento do moinho durante mais ou menos tempo depende das chuvas com que o Inverno nos brinda, transportando o rio mais ou menos água, fazendo com que o Verão e o Outono sejam momentos de pausa neste local digno de um museu-memória.
Por quanto tempo conseguirá o Sr. Armando continuar este legado ancestral com fim anunciado? Mais uma atividade que um dia será memória só recordada em registos da época. Os tempos mudam e alguns têm o condão de não desistir, até ao dia em que já não puderem mais e outros não haja para a sua continuação. Este é o último moleiro. Este é o último moinho.















sexta-feira, 9 de março de 2018

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