terça-feira, 24 de abril de 2018

O Último Moinho do Último Moleiro


O som da água aumenta a cada passada. Acompanhado pelo Sr. Armando, dirigimo-nos ao Rio Dão, em Porto de Aguiar, Dornelas para aproveitar as águas que as chuvas deste ano nos trouxeram. Por fora, uma casinha ancestral de pedra passa despercebida a quem por ali se perde. Vindo de há muitas gerações atrás, este moinho de água vê-se agora no seu prazo de validade curto, pois as novas gerações renegaram a sua utilidade, a sua tradição, a sua potencialidade, fruto do chamado êxodo rural. Chegados ao moinho a paisagem em redor pede por si só uma visita. O rio em declive com o seu açude e respetiva cascata inundam-nos os ouvidos com o relaxante som da água que corre cristalina. O verde da floresta e dos campos envolventes alegra-nos o olhar e o chilrear dos pássaros inserem-nos num conto de fadas. Todos os nossos sentidos revigoram e ainda nem chegamos ao que nos trouxe cá. Aliando a sua simpatia à enorme capacidade de explicar tudo o que tem a ver com a dinâmica do moinho, o Sr. Armando transforma este passeio numa autêntica visita guiada. Abrindo caminho por entre ervas que nos dão pelos joelhos, chegamos a um canal feito de pedra, paralelo ao rio, por onde também corre água. Na extremidade deste canal, um enorme poço também este de granito, com boca larga mas que vai estreitando até desaguar no inferno, nome do pequeno piso inferior do moinho com uma abertura em forma de cabana. Neste compartimento existe uma estrutura redonda chamada rodízio, que com a pressão da água roda e como está diretamente ligado à mó acima, fá-la rodar também. A abertura do canal para o poço ou novamente para o rio funciona assim como interruptor para a mó e respetiva moagem. Uma telha transparente, a porta de entrada e um pequeno janelo dão a claridade suficiente a este local que só precisa da natureza e da mão humana para funcionar. No interior do moinho, sente-se um agradável cheiro a farinha acabada de moer. Por entre sacas de farinha e uma mó desativada que também merece uma apresentação, chegamos ao pequeno compartimento onde se encontra outra mó em pleno funcionamento. Pequenos grãos de milho acumulados na dorneia, estrutura de madeira em forma de pirâmide invertida, mostram o seu tom dourado ao escorregarem aos poucos pela quelha e entrando no olho da mó. O chamadoiro, uma peça de madeira em forma de cruz presa à quelha e com a base na superfície da mó, recebe o atrito suficiente para fazer rolar o milho, o qual a sua quantidade se saída também é regulado na dorneia. A mó assenta numa base de pedra com forma para a encaixar, apenas com uma abertura à frente por onde é bem visível o tom amarelo da farinha a cair para um monte no tremonhado à sua frente e que o Sr. Armando ao fim do dia se encarrega de apanhar e ensacar. Depois de todo este processo, os clientes que antes cá deixaram o produto em forma de grão, veem agora busca-lo em forma de farinha para assim poderem fazer o seu pão caseiro no forno comunitário ou até para os caldos que alimentam a criação. Como em tudo em que a natureza reina, o funcionamento do moinho durante mais ou menos tempo depende das chuvas com que o Inverno nos brinda, transportando o rio mais ou menos água, fazendo com que o Verão e o Outono sejam momentos de pausa neste local digno de um museu-memória.
Por quanto tempo conseguirá o Sr. Armando continuar este legado ancestral com fim anunciado? Mais uma atividade que um dia será memória só recordada em registos da época. Os tempos mudam e alguns têm o condão de não desistir, até ao dia em que já não puderem mais e outros não haja para a sua continuação. Este é o último moleiro. Este é o último moinho.















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