Um
convite insistente para bebermos um copo de vinho de produção dos próprios foi
o mote para sairmos da carrinha e os acompanharmos ao curral. Em conversa
disseram-nos qual o motivo da agitação de hoje na sua propriedade. Estavam à
espera dos tosquiadores, era dia para tosquiar as ovelhas. Cerca de cinquenta
cabeças de gado iriam hoje ficar despidas da lã já acumulada havia um ano. As
ovelhas pastavam calmamente junto ao curral acompanhadas por algumas cabras e
cabritos. Dali viam-se serras verdes e terrenos que a Primavera começara a
enfeitar, videiras prontas para receber o fruto e árvores salpicadas de cores.
Com o paladar ocupado pelo sabor frutado do vinho e as narinas inundadas pelo
seu aroma fresco, a conversa desenrolou-se o tempo suficiente para lhes contar
com que intuito eu estava ali e para me dizerem que ainda faltavam umas horas
para a chegada dos tosquiadores. Antes de lhes perguntar se podia mais tarde
fotografar a tosquia, eles próprios se anteciparam às minhas palavras. Desta
forma despedi-me com um até já e concentrei-me no meu primeiro plano.
Algum
tempo depois, no meu regresso ao local reparo que mais pessoas se encontravam
ali, pessoas suas amigas que se dispuseram a ajuda-los neste dia atarefado.
Naquela aldeia como em todas as outras aldeias rurais o sentido de
solidariedade encontra-se na porta ao lado e estende-se pela rua fora. A
entreajuda é a moeda transaccionada, a moeda que mais valor tem por estes
lados. Rapidamente conheci os presentes e o facto de estar ali para fotografar
revelou-se numa grande receptividade por parte destes, ficando bastante
agradados com isso. O convívio tornou-se agradável e sentia-me completamente em
casa. O convite que recebi para no final ficar para a refeição jamais poderia
ser recusado. Aproveitei como sempre para fazer o que faço sempre nestes casos,
aprender tudo o que dali podia aprender. Entretanto chegaram os dois
tosquiadores e era tempo de iniciar manobras. A primeira fase foi reunir todas
as ovelhas num pequeno espaço cercadas por uma rede alta. Como as ovelhas já se
encontravam juntas, o que tinha de ser feito era aos poucos ir diminuindo a
área para ficarem num espaço reduzido para terem pouca mobilidade a fim de
facilitar o processo da sua apanha. A movimentação em torno desta tarefa
desencadeou uma notória agitação nos animais que daí a um pouco estavam juntos.
Segunda fase, agarrar a ovelha e leva-la até ao tosquiador que já empunhava a
máquina de tosquia. Maquina esta que veio substituir as antigas tesouras de
tosquia, tesouras com que os tosquiadores cortavam a lã deixando relevos em
forma de riscas ao longo do corpo do animal. Segundo os tosquiadores essa arte
antiga hoje em dia é apenas visível em algumas festas tradicionais com esse
propósito uma vez que a rapidez com que uma máquina eléctrica permite tosquiar
uma ovelha é bastante superior. Há também uma maior facilidade no seu uso,
permitindo haver mais pessoas a tosquiar e rompendo com o passado em que a
tosquia era uma arte manual que requeria tempo de aprendizagem.
A
tosquia continuava. Todos os homens estavam empenhados em preparar as ovelhas
para leva-las aos tosquiadores logo ao lado. Ouvia-se o som eléctrico da
máquina a percorrer o corpo do animal, deixando-o despido e pronto a meter no
curral para não se misturar com as não tosquiadas. Eu estava já contente com o
conteúdo fotográfico que possuía e a minha mente já só me pedia uma coisa,
meter as mãos à obra. A memória imagética daquela actividade já eu tinha
registado, mas além do prazer que a fotografia me permite usufruir no
congelamento de espaços de tempo não se compara ao outro prazer que ela me
proporciona, inserir-me no meio, conhece-lo, fazer parte dele, vivê-lo. Larguei
a câmara fotográfica e lancei-me para o meio do gado. Agarrei ovelhas, levei-as
aos tosquiadores, voltei a coloca-las no curral. Nunca tinha visto uma tosquia
e agora, inesperadamente não só estava a assistir com estava a participar nela,
a fazer parte dela. Uma a uma todas as ovelhas foram tosquiadas e quando a
ultima caminhava mais leve e fresca para o curral já a noite caía.
Para
terminar o dia em beleza, os dois irmãos não se pouparam nos petiscos. Vários
tipos de enchidos caseiros, queijos, bacalhau desfiado com azeite, frango no
churrasco entre outras iguarias eram regados com um belo vinho que amadurecias
nas suas pipas havia quase um ano. O convívio tornou-se numa confraternização
que o mundo não rural jamais será capaz de testemunhar. Sou hoje uma pessoa
muito mais rica, mais conhecedora dos costumes que se vão desvanecendo por
conta do êxodo rural e das mudanças sociológicas que atravessamos. Mas acima de
tudo mais rico por me cruzar com pessoas que vale a pena conhecer e que estão
sempre prontas para receber com um sorriso na cara quem vem por bem.
Fotografias e Texto: Bruno de Andrade
Estas belíssimas imagens levaram-me de volta à minha terra e é bom ver por aqui rostos bem conhecidos.
ResponderEliminarO Bruno faz umas excelentes fotografias e o texto faz-nos reviver tempos que foram intensamente vividos.Bem haja por esta partilha.
Abr./Paula
Muito obrigado pelas palavras Paula.
EliminarSe nada mudar até lá,esta será a foto-repoertagem da proxima edição do jornal "Mais Aguiar da Beira" (com os respectivos nomes dos locais e pessoas no texto).
Obrigado
Bruno Andrade
Excelente reportagem e excelentes fotografias, não haja dúvida! Parabéns por este belíssimo trabalho, cheio de expressividade. Recorda-me o quanto adoro este Portugal, tão rural, em que eu própria vivo.
ResponderEliminarMuito obrigado :)
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