Em Forninhos AgB, Guarda
quinta-feira, 26 de julho de 2018
terça-feira, 24 de abril de 2018
O Último Moinho do Último Moleiro
O som da água aumenta a cada passada.
Acompanhado pelo Sr. Armando, dirigimo-nos ao Rio Dão, em Porto de Aguiar,
Dornelas para aproveitar as águas que as chuvas deste ano nos trouxeram. Por
fora, uma casinha ancestral de pedra passa despercebida a quem por ali se
perde. Vindo de há muitas gerações atrás, este moinho de água vê-se agora no
seu prazo de validade curto, pois as novas gerações renegaram a sua utilidade,
a sua tradição, a sua potencialidade, fruto do chamado êxodo rural. Chegados ao
moinho a paisagem em redor pede por si só uma visita. O rio em declive com o
seu açude e respetiva cascata inundam-nos os ouvidos com o relaxante som da
água que corre cristalina. O verde da floresta e dos campos envolventes alegra-nos
o olhar e o chilrear dos pássaros inserem-nos num conto de fadas. Todos os
nossos sentidos revigoram e ainda nem chegamos ao que nos trouxe cá. Aliando a
sua simpatia à enorme capacidade de explicar tudo o que tem a ver com a
dinâmica do moinho, o Sr. Armando transforma este passeio numa autêntica visita
guiada. Abrindo caminho por entre ervas que nos dão pelos joelhos, chegamos a
um canal feito de pedra, paralelo ao rio, por onde também corre água. Na
extremidade deste canal, um enorme poço também este de granito, com boca larga
mas que vai estreitando até desaguar no inferno, nome do pequeno piso inferior
do moinho com uma abertura em forma de cabana. Neste compartimento existe uma
estrutura redonda chamada rodízio, que com a pressão da água roda e como está
diretamente ligado à mó acima, fá-la rodar também. A abertura do canal para o
poço ou novamente para o rio funciona assim como interruptor para a mó e
respetiva moagem. Uma telha transparente, a porta de entrada e um pequeno
janelo dão a claridade suficiente a este local que só precisa da natureza e da
mão humana para funcionar. No interior do moinho, sente-se um agradável cheiro
a farinha acabada de moer. Por entre sacas de farinha e uma mó desativada que
também merece uma apresentação, chegamos ao pequeno compartimento onde se
encontra outra mó em pleno funcionamento. Pequenos grãos de milho acumulados na
dorneia, estrutura de madeira em forma de pirâmide invertida, mostram o seu tom
dourado ao escorregarem aos poucos pela quelha e entrando no olho da mó. O
chamadoiro, uma peça de madeira em forma de cruz presa à quelha e com a base na
superfície da mó, recebe o atrito suficiente para fazer rolar o milho, o qual a
sua quantidade se saída também é regulado na dorneia. A mó assenta numa base de
pedra com forma para a encaixar, apenas com uma abertura à frente por onde é
bem visível o tom amarelo da farinha a cair para um monte no tremonhado à sua
frente e que o Sr. Armando ao fim do dia se encarrega de apanhar e ensacar.
Depois de todo este processo, os clientes que antes cá deixaram o produto em
forma de grão, veem agora busca-lo em forma de farinha para assim poderem fazer
o seu pão caseiro no forno comunitário ou até para os caldos que alimentam a
criação. Como em tudo em que a natureza reina, o funcionamento do moinho
durante mais ou menos tempo depende das chuvas com que o Inverno nos brinda,
transportando o rio mais ou menos água, fazendo com que o Verão e o Outono
sejam momentos de pausa neste local digno de um museu-memória.
Por quanto tempo conseguirá o Sr.
Armando continuar este legado ancestral com fim anunciado? Mais uma atividade
que um dia será memória só recordada em registos da época. Os tempos mudam e
alguns têm o condão de não desistir, até ao dia em que já não puderem mais e
outros não haja para a sua continuação. Este é o último moleiro. Este é o
último moinho.
sexta-feira, 9 de março de 2018
Culminar
Cais do Ginjal, Cacilhas, Almada (Samsung Galaxy S7)
Mais fotos em: https://www.facebook.com/poatp/posts/1785782934775373
Mais fotos em: https://www.facebook.com/poatp/posts/1785782934775373
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Memória
"A memória é uma armadilha, pura e
simples, que altera, e subtilmente reorganiza o passado, por forma a
encaixar-se no presente." Mario
Vargas Llosa
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Abrunhosa-a-Velha, Alma Beirã
Depois de percorrermos várias estradas
municipais que nos levaram ao destino, eis que chegamos a Abrunhosa-a-Velha,
concelho de Mangualde, distrito de Viseu. Munidos do desdobrável de uma rota
homologada que facilmente se encontra na internet, os objetivos eram percorrer
este prometedor percurso e também conhecer a aldeia em si. Ela aguardava
ansiosamente pelas novas descobertas, pelos cheiros típicos das aldeias no
outono, pelas aventuras e reavivar as memórias de férias em criança. E eu,
sendo fã das aldeias e das zonas rurais, e tendo crescido numa delas, sei que
muito há para fazer e para ver contrariando o sentimento de pasmaceira que
erradamente muitas vezes se faz passar. Um dos grandes segredos: interagir com
os habitantes locais, eles têm sempre algo a acrescentar e uma dica preciosa
para dar. A primeira impressão foi uma aldeia construída em declives. Do fundo
da aldeia pode ver-se o cimo e são muitas as ruas e ruelas que nos levam lá.
Nos primeiros passos, sobressai o valor que os locais dão à maior matéria-prima
da região, o granito. A maior parte das casas antigas foram recuperadas
mantendo esta pedra, fazendo com que ao percorrer as ruas sentíssemos ainda a
genuinidade de outros tempos. A própria arquitetura de grande parte das casas puxa
a nossa imaginação para tempos remotos, com uma escadaria de pedra lateral à
casa e acabando num patim à porta da entrada. Iniciámos a Rota da Senhora dos
Verdes, que percorre a aldeia e parte das serras envolventes. Partimos da
antiga e bela Igreja Matriz tendo como padroeira a Santa Cecília, de estilo
neoclássico com muitos apontamentos ancestrais e um vitral na frontaria que
podemos apreciar de dia as suas cores no interior e de noite no exterior.
Tivemos a sorte de conversar com alguns habitantes que aproveitavam o dia
soalheiro, entre os quais o senhor responsável pela abertura do templo, que nos
fez uma visita guiada pelo mesmo, maravilhado por ter alguém a quem transmitir
o que sabia. Logo ao lado, reside uma estátua granítica de homenagem aos combatentes
filhos da terra que participaram na guerra do ultramar, no centro de uma
pequena praça. Mais uns metros andados damos com o Cantinho dos Poetas, uma
ideia de salutar que recuperou espaço ao abandono para dar lugar a um largo de
lazer rodeado por painéis de azulejo com poemas dos icónicos autores
portugueses. E como este parque, muitos outros fazem-nos reconhecer a visão e o
cuidado das entidades competentes em ter uma aldeia cuidada, amiga dos seus
habitantes e prazerosa para quem a visita. Outro exemplo disso é o Cantinho dos
Ferreiros, um belo miradouro para as serras do Rio Mondego, onde podemos
usufruir de um forno comunitário construído em granito e logo abaixo, na
continuação do miradouro, admirar o aproveitamento de uma casa antiga que seria
para demolir mas que possuía um forno também antigo que foi recuperado assim
como parte das paredes graníticas da habitação. Na entrada norte da aldeia, o
Parque dos Artistas homenageia as profissões da terra e mais uma vez
encontramos bancos de madeira e sombra para fazer uma pausa e contemplar a
Serra da Estrela no horizonte. Um parque infantil bem cuidado faz vizinhança
com a piscina pública, o campo de futebol de cinco e a casa da cultura, local
para eventos comunitários ou privados. Ao sairmos da aldeia palmilhamos por
caminhos agrícolas que nos guiam até ao Apeadeiro dos Caminhos de Ferro que nos
brinda com dois grandes e belos painéis de azulejo. Continuando por campos de
cultivo e olivais chegamos a mais um ex-líbris da aldeia, a Ermida de Nossa
Senhora dos Verdes, com todo um espaço curioso e um coreto que nos dias da
festa se encherá de vida e música. De regresso à povoação podemos ainda
contemplar a curiosa construção que é o Abrigo do Pastor, não sendo preciso
puxar muito pela imaginação para saber qual a sua utilidade no passado. Muitas
alminhas pelo caminho, algumas até com belo trabalho de relevo na pedra e com
bonitos painéis de azulejo, uns mais bem preservados do que outros. No regresso
à povoação deparamo-nos com o pelourinho junto à antiga cadeia e tribunal –
agora Junta de Freguesia, num largo que nos prenda com mais um bonito chafariz.
Chafarizes por todo o lado e algumas fontes de beleza singular, decoram os
vários recantos da aldeia. De referir as fontes de chafurdo, uma perto da
entrada norte da aldeia e a fonte que enche o tanque comunitário. Continuando a
caminhada pelas ruas tratadas e limpas chegamos a uma prensa de lagar exposta
num pequeno largo, artefacto este que apenas os mais velhos sabem como
funcionava em tempos idos na arte de fazer o vinho. Pudemos constatar para
nosso prazer que algumas ruas ainda preservam a famosa calçada romana. Passamos
pela antiga casa do juiz e admiramos a janela quinhentista com o seu desenho
característico. Encontramos também algumas casas em ruínas mas que em nada
afetam o que já vimos que esta aldeia tem para nos oferecer, aliás, até acabam
por dar algum ar nostálgico e misterioso ao ambiente da povoação, com as eras a
decorar paredes ancestrais de verde, dando cor e vida ao abandono. Continuamos
a subir a rua até chegarmos ao Hotel Rural Mira Serra com aspeto bem charmoso,
assim como toda a sua envolvência. Os arcos em granito, os bancos de pedra e
uma fonte com um fantástico painel de azulejo são alguns dos belos apontamentos
que compõem este espaço. E logo acima, andando por um caminho agrícola ladeado
por muros de pedra, a peculiar Capela de São Sebastião com um terraço de
colunas de granito e uns bancos de pedra que nos pedem para fazer uma pausa ao
pôr-do-sol e contemplar toda a aldeia e as serras envolventes, e respirar a
esfera de calmaria que se faz sentir. Descemos novamente à povoação e não
resistimos a passar pela Igreja para agora admirar o vitral que a luz interior
o faz iluminado por fora. Até de noite a aldeia merece ser apreciada, as suas
ruas típicas iluminadas pelos candeeiros de arte antiga têm sempre algo novo
para descobrirmos e admirarmos. Abrunhosa-a-Velha convida com a sua vista
panorâmica sobre a serra; com as suas ruas embelezadas, quer pelo património
recuperado, quer pela natureza que nelas emerge; com os seus bancos espalhados
pelas ruas, principalmente aqueles à porta das casas que aguardam por quem se
sente neles. Bancos que se enchem de emigrantes nos dias grandes de Agosto, que
convocam um convívio entre vizinhos, que permitem descansar as pernas de uma
população mais envelhecida, que saúdam quem lá vem, bancos que aguardam por uma
troca de histórias para contar. No final da visita ficou a sensação de sabor a
pouco. Abrunhosa-a-Velha permite-nos voltar no tempo, respirar, meditar, contemplar
e descobrir. É por isso que vamos voltar.
Texto e Fotografias por Bruno Andrade e Vera Pereira
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